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A morte violenta do empreendedor assassinado por suas próprias convicções
Autor: Felipe Gentil

A morte violenta do empreendedor assassinado por suas próprias convicções

No dia 3 de novembro de 2016, sábado, era aniversário de 1 ano da Proseek. Eu tomei um banho de manhã ensaiando o discurso para contar às pessoas da minha família que eu tinha desistido do negócio.

Eu estava virando estatística, morri no famoso vale da morte junto com 99% das startups.

Na verdade, aquele era só mais um dos ensaios-no-banho que eu tive nos últimos meses. A diferença é que nesse dia tinha um almoço com a família toda, então era essa a oportunidade que eu precisava.

Passei a manhã em silêncio, introspectivo. Descobri que conseguia ver meu reflexo no café preto servido na minha xícara.

Como explicar para os meus pais que eu tinha abandonado uma carreira tão promissora para ficar um ano fora do mercado, sem salário só por um sonho bobo?

Fui de carro e no caminho minha namorada perguntou pelo menos duas vezes se tinha algum problema.

Claro que tinha: honra, orgulho, autoestima. Tudo no chão, aos pedaços.

Lá em casa a família toda fez carreira. Cada um no seu mercado, todos construíram suas histórias de sucesso e agora o filho mais novo ia dar esse vexame?

E sabe o que era pior? Imaginar aquelas expressões de “viu, te avisei…”. E esse era o momento mais duro que eu podia imaginar para quando o momento chegasse.

Afinal de contas, toda minha família apoiou quando eu contei que estava começando a Proseek, mas era mais ou menos assim: “Poxa, que ideia maravilhosa. O setor é muito promissor mesmo” …” mas você se deu um prazo para desistir?”.

Essa era de doer. Só quem passou por isso conhece a sensação.

Entrei no restaurante, cheguei por último. Cumprimentei as pessoas e sentei ao lado da minha mais-que-maravilhosa namorada.

Eis que uma cabecinha vira do canto da mesa e solta: “E aí, Felipe? Como vai aquele seu PROJETO?”

Cara, eu não tinha nem colocado o guardanapo no colo ainda.

Na verdade, eu não sei se isso é um problema meu, mas poucas coisas me ofendem mais do que chamar o negócio pelo qual eu me mato de trabalhar todos os dias, o meu “sonho grande”, de “projeto”. Por mais que naquela época fosse uma GRANDE empresa de um homem só.

Não tenho vergonha de assumir: a minha vaidade me salvou. Ninguém pode falar assim da Proseek, nunca.

E então, apesar de tudo que provava que o negócio tinha dado errado, que eu tinha quebrado, eu defendi a empresa como sempre fiz e sempre vou fazer.

Devolvi a pedrada com um discurso firme e postura de confiança, resiliência e paixão pelo que faço.

Olha, ainda bem que a família existe, sabia? Até quando não acreditam em você, estão ali para despertar o sentimento que você precisa.

Pelo menos por mais um dia eu desisti de desistir.

A segunda-feira chegou e eu conheci um cara aleatório do Piauí, indicado por outro cara aleatório do Piauí. Ele tinha chegado a mim por conta de um processo seletivo em que ele entrou por engano (vou pedir pra ele comentar nesse texto só pra confirmar a história).

Eu juro que essa frase faz sentido e é absolutamente verdadeira, apesar de confusa.

Esse evento mudou drasticamente a dinâmica dos acontecimentos envolvendo a Proseek para chegarmos onde estamos hoje.

Em novembro de 2016 eu estava sozinho, numa sala de reunião emprestada na empresa de um amigo. Hoje somos mais de 40 pessoas, dois escritórios, presença em São Paulo e Rio, empresa avaliada em R$ 65.000.000,00.

O que aconteceu nesses dois anos eu conto em outro texto.

Vou contar aqui como as minhas próprias convicções (quase) me mataram. Como me levaram a tomar decisões estúpidas, me cegaram e me destruíram emocionalmente a ponto de eu desistir do meu maior sonho.

Um ano antes eu estava sendo demitido da XP e fiquei livre para tocar o negócio que até então eu virava noites para conseguir tirar na inércia.

Já no início de 2016 nós conseguimos passar no processo seletivo de uma pré-aceleradora no Rio.

Eu e Enzo, meu sócio fundador, idealizamos um marketplace de formação profissional que deveria reunir serviços de mentoria, cursos e alocação para profissionais de base (estagiários, analistas e trainees) em uma variedade de carreiras: direito, medicina, economia, engenharia, etc.

Essa era a cara da Proseek na ultrassonografia. 🙂

A nossa tese era de que criaríamos um marketplace gigantesco e inteligente para que os alunos navegassem, consumissem conteúdos e experiências diversas de forma autogerida.

Eu tinha certeza que já era bilionário com essa ideia, faltava só atualizar o saldo na conta bancária

Empreendedor

Primeiro tapa na cara: era muito comum receber visitas de CEOs, grandes empresários e empreendedores de destaque na aceleradora, por isso eu tinha um pitch ensaiado na ponta da língua.

Um certo dia o CEO de uma empresa que você conhece bem me parou no corredor e mandou: “E aí, você faz o que?”

No ecossistema de startups essa pergunta quer dizer: “me impressione em 30 segundos e talvez eu te dê mais 30”.

Comecei meu pitch maravilhoso e fui interrompido antes dos 30 segundos que supostamente eu tinha direito. 🙂

“Esquece” ele disse e ficou em silêncio.

EU: “Que?”

“Esquece isso. Você quer vender pra todo mundo e vai acabar não vendendo pra ninguém”.

Eu amava a minha ideia, tinha muito orgulho de me sentir o empreendedor genial que arrancava até alguns sorrisos de inveja quando contava para as pessoas.

Valente como todo empreendedor de primeira viagem, atropelei esse feedback e fui em frente.

Eu tinha certeza de que criar uma estrutura de cursos próprios seria algo operacionalmente pesado, custoso e pouco escalável. Distribuir as soluções, por outro lado, era genial.

Ué, se o Airbnb é a maior empresa de hospedagem do mundo sem ter um quarto sequer e o Uber é a maior empresa de transporte sem ter um carro sequer, por que a Proseek não poderia ser uma empresa de formação profissional sem cursos?

Nada me convenceria de que eu não ia conseguir. Eu acreditava que a ideia teria uma força implacável de atração de demanda só por ser tão boa.

Olha, ler a frase anterior hoje me provoca sentimentos mistos… Um pouco de orgulho sim, por ter superado isso em algum momento. Mas confesso que isso me machucou tanto ao longo de 2016 que hoje eu me audito o tempo todo, contesto minhas visões e busco os feedbacks proativamente.

Eu nunca mais quero passar por aquilo: angústia, ansiedade e frustrações infinitas.

Eu amei e me ceguei pela ideia que criei.

Perdi parceiros, quase-sócios e muitos, mas muitos clientes porque não queria ouvir ninguém. Eu tinha absoluta certeza do valor do que tinha criado e meu orgulho não me deixava desistir de provar para o mundo que eu podia fazer dar certo.

Ao longo de 2016 a empresa faturou R$ 9.000 e me custou mais de R$ 120.000. Em novembro, eu e a Proseek estávamos quebrados – financeira e emocionalmente.

Sendo justo comigo mesmo, é fácil juntar as peças olhando para trás, né? Hoje parece muito fácil perceber que eu estava na rota da autodestruição, que precisava ouvir as pessoas e tomar outras decisões.

Warren Buffet cravou que “é fundamental aprender com os próprios erros, mas é melhor aprender com os dos outros.”

Doeu, mas eu aprendi.

Aprendi que quando você começa um negócio/produto é muito comum se deixar levar por ideias megalomaníacas para dominar o mundo, quando o que você precisa é prototipar a sua proposta de valor mais essencial e entregar pro seu cliente ideal.

Bernard de Luna me disse uma vez, na aceleradora: “quando você está começando, não crie um negócio que muitas pessoas gostem. Crie um negócio que poucas pessoas AMEM”.

Como tantos outros conselhos, eu ignorei esse também. Mas hoje vejo que a mesma mensagem pode impactar uma mesma pessoa em momentos diferentes da vida. E essa é uma que eu guardo no coração.

Também aprendi que nenhuma pesquisa de mercado te traz tanta inteligência quanto um MVP Concierge, i.e., quando você entrega pessoalmente seu produto ou serviço.

Se você tem um produto enxuto, focado na proposta de valor e entrega para o cliente ideal, nada vai te trazer mais insights sobre como aprimorar o que você ofereceu, do que ficar olhando de perto como o cliente se relaciona com o seu serviço/produto.

O início do negócio é 1% sobre a sua ideia e 99% sobre prototipar, testar, aprender e relançar – o mais rápido possível.

Bom, pode ser que a minha história pareça um tremendo mimimi para o novo empreendedor genial do pedaço, valente como eu era.

Então, para terminar, dedico mais um conselho desprezado por mim em 2016 a quem acha que uma boa ideia vira um negócio só porque seus amigos e familiares não tem coragem de perguntar: “quem pagaria por uma Lamborghini para ir à padaria do outro lado da rua quando você pode usar um patinete?”.

Prototipe, teste, aprenda e relance. Esqueça a ideia e se apaixone pelo processo.

As minhas convicções quase mataram meu projeto de vida. Salve o seu enquanto há tempo.  🙂

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Fontes:

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